NA PALMA DA TUA MÃO!!
Boa noite! Quando recebi o e-mail das representantes da Comissão de Formatura, Solemar e Caroline, para participar das comemorações de formatura de vocês, eu não sabia bem o que fazer. Eram tantos os sentimentos em que eu estava envolto, que toda minha inspiração quase se foi com o êxtase de abrir cada momento da minha memória em que vocês construíam conhecimentos nos três semestres iniciais do curso de Comunicação Social. Era um regozijo só. Texto, leitura, coesão, coerência, reportagem narrativa, reportagem dissertativa, texto pubilicitário, metáforas, metonímias... Tudo isso dançava em minha memória... Lembro dos meus apelos: “leiam”, “leiam”, “leiam”... “escrevam”, “escrevam”, “escrevam”...
Mas, pensando um pouco melhor, resolvi escrever...Sabem por quê?
Porque exigi leitura, escrita... Escrita e leitura... Mais leitura, mais escrita... Era tanta leitura e tanta escrita que quase fiquei tonto...
Como? Eu, tonto?
Isso!! Exatamente!! Percebi o quanto deixei, por vezes, vocês completamente tontos. Tontos de conhecimento. Tontos de leitura. Tontos de escrita. Tontos de sabedoria.
Escrevi algo, não sei há quanto tempo, que me desnudava por inteiro. Depois, não mais tempo tive para expor-me, mostrar-me, desvendar-me. E agora, é vocês devem perder o pudor... Desnudem-se!! Desvelem-se!! A escrita faz cada coisa com a gente, não é mesmo!!! Quem não escreveu carta de amor? Quem não chorou suas dores nas páginas de um diário? Quem não escreveu um pequeno bilhete para ganhar a gata ou o gato? Quem não deixou suas marcas escritas nas portas de banheiro? Quem não ficou p. da vida porque perdeu o fone daquela figura fantástica que você conheceu na boate, semana passada?Quem nunca escreveu telefone de alguém em pedaço de guardanapo? Afinal, quem é que não escreve??? A escrita faz parte da nossa vida...
Escrever é isso. Escrever é uma ação solitária. Escrever é retratar mundos jamais pensados. Escrever é a mais tenra essência do avesso. Escrever é desvendar mistérios, criar histórias, analisar idéias, expor pensamentos, fazer analogias, estabelecer conexões com a realidade, com a ficção, com mundos desconhecidos... Escrever é denunciar. Escrever é mostrar-se. Escrever é inocentar.
Escrever é ver-se no espelho e descobrir-se deslumbrado com a essência humana. Não conheço ninguém que não tenha se olhado no espelho e que não tenha se surpreendido consigo próprio. Agora, escrevo compungido para mostrar-me, mais uma vez e surpreender-me mais comigo mesmo. Escrever é libertar e libertar-se...
O meu ‘eu’ escrevente alterna com o meu ‘eu’ pensante e, por vezes, eles se confundem e mostram todas as confusões possíveis dos vários sujeitos que compõem a minha pessoa: o eu-professor, o eu-mestrando, o eu-amigo, o eu-filho, o eu-prazer, o eu-amante, o eu-político, o eu-militante, o eu-eu... Esse, com todas as contradições próprias de nós mesmos, sou EU...
Tentando, intentando, atentando a todo momento para ser 'EU'... simplesmente 'EU’... Sem medos, sem rancores, sem amarras. Deixarei fluir minhas idéias, meus sentimentos, meus valores, meus pensamentos, meus olhares.
Dessa feita, folheei alguns escritos do Boff... Fiquei extasiado...
“Homem vem de humus que significa terra fecunda. Adão, Adam, em hebraico, ‘criatura humana feita de terra’, provém de adamá que quer dizer mãe-Terra. O ser humano é filho e filha da mãe-Terra. O ser humano é filho e filha da mãe-Terra. Ele é a Terra em seu momento de consciência, de responsabilidade e de amor.”(Boff, p. 124)
Aí, lembrei de que ‘Ser Professor’ é um pedaço do ‘Ser Humano’.... Professor é ser humano.... Assim, Professor é filho da mãe-Terra... Então, ele é a Terra em seu momento de consciêrncia, de responsabilidade e de amor...
Professor também tem que ler... Professor também tem que escrever... Professor também não tem tempo... Professor também sofre... Professor também chora... Professor também sente... Professor também se magoa... Professor também tem que pensar... Professor também tem que pesquisar... Ah...!!! Era isso!!! Achei a inspiração... Quero que estas idéias possam atravessar épocas e tocar com palavras àqueles que sonham, que viajam, que pensam um mundo diferente, que sejam ricos de utopias e lutadores incansáveis...Eu não podia perder a oportunidade de, neste momento, deixar mais uma palavra de encorajamento para todos vocês... PROFESSOR TAMBÉM TEM QUE TRANSFORMAR... E a inspiração veio. Forte como o primeiro grito de vida... Vejam o que aconteceu...Nascer... Esse é um verbo que traduz a sua verdadeira força de sentido. Para se nascer é preciso entender que o que estamos gestando é algo demorado, exige paciência, exige cuidados, exige calma, exige compreensão.
Algumas vezes, passamos por alguns enjôos; outras, nem tanto. Quando estamos prenhes de emoções, de desejos, de vontades, de pressa, de necessidades outras, tendemos a não ter paciência. Tendemos a acreditar que, sem esforço, as coisas acontecerão imediatamente.
Acabamos por fortalecer os velhos obstáculos como: não tenho tempo, não dou conta, estou cansado, não consigo, quero acabar logo, não agüento mais... Quero dizer que, ao longo dos semestres em que estivemos juntos, nós, alunos, alunas e professor, viemos traçando uma rede de convivência nada tranquila, tensa, às vezes, porém extremamente gratificante, cheia de surpresas, cheia de aproximações...Quem foi que disse que paz é ausência de conflito? Paz é poder olhar no olho do outro e dizer honestamente: Não gostei! Vamos caminhar juntos? Posso colaborar com você? E você? O que pode fazer para me ajudar? Vai me dá a tua mão?
Foram momentos discutindo o que é um ‘texto’, discutindo ‘coesão’, falando sobre ‘coerência’, elucidando o ‘a estrutura do texto jornalístico e do texto publicitário’, viajando no ato de ‘escrever’... Foram tantos saberes... E foram tantos sabores... Que sensação agradável e plena de poder descobrir saberes que só outrem tem acesso! As sensações foram várias, mas ficaram marcadas em cada um de vocês...
Os olhares de desconfiança, de receio, de medo, no início do curso, cederam lugar para o brilho da descoberta, do descortinar dos mitos, da conversa aberta, franca, amiga.
Mas, será que tudo foi tão maravilhoso assim? É claro que seria muita pretensão de nossa parte querer chegar à perfeição. Houve momentos de ansiedade, de angústia, de conflitos, de estresse... Mas tudo foi superado de modo maduro, sincero, honesto.
Nada abalou o firme propósito de escrever, de conhecer, de amadurecer, de aprofundar conhecimentos, de brincar com as palavras, de mexer com estruturas fixas, de fazer as letras e as palavras dançarem...
Nasceu... O verbo não mais assume a sua forma nominal, mas ação efetiva. Nasceu o verdadeiro sentimento de pertencimento. Nasceu o exercício do poder da palavra. Nasceu a vontade de avançar no próprio processo de formação. Nasceu o produto de um trabalho realizado por pessoas sérias, compromissadas, capazes. Nasceu a mágica das cabeças, mãos, pernas, bocas, braços, corpos desses estudantes inquietos, espertos e loucos para aprender...
Milimetricamente, a coreografia foi ganhando forma. Os passos foram todos ensaiados. As vestimentas compuseram o cenário do balé. Um balé mágico de palavras, de saberes, de desejos. Um balé mágico de suavidade entre os conhecimentos, as palavras que impregnaram nossas mentes. Uma dança com as letras, com as palavras, com as nossas idéias, com o nosso poder de pesquisar movimentos, idéias, sensações...
Os resultados desse dessa jornada representam a verdadeira conjunção de saberes que finalizam parte de nossa caminhada. Foram grandiosas as contribuições de vocês e, com certeza, dei tudo o que me foi possível dar... É isso! Não conseguimos as coisas sozinhos. Somos seres coletivos. Somos seres sociais. Conseguimos vencer juntos! Aqui, quero gritar VÁRIOS NÃOS BEM GRANDES:
NÃO ao individualismo! NÃO a todo e qualquer tipo de preconceito! NÃO ao sentimento de fraqueza! NÃO à falta de ética! NÃO ao autoritarismo! NÃO à desonestidade! NÃO à falta de criticidade! NÃO à falsidade desenfreada! NÃO à preguiça desregrada! NÃO à letargia! NÃO a tudo o que não edifica.
Daqui pra frente é seguir sem medo , sem hesitar. É preciso auto-afirmar-se, acreditar no próprio poder. Dar passos firmes, sólidos, certos!
Vocês, JORNALISTAS E PUBLICITÁRIOS, serão, se já não o são, os grandes transformadores desse país. Esse Brasil precisa de gente apaixonada, feliz, lutadora, questionadora... Basta de acriticismo! Basta de passividade! Basta de comodismo! Basta de injustiças! Basta de fome! Basta de miséria! Basta de corrupção! Basta de larápios de colarinho branco!
Clarice Lispector dá-nos uma grande lição do poder que temos ao escrever, ao falar :
“Ao escrever não posso fabricar como na pintura, quando fabrico artesanalmente uma cor. Mas estou tentando escrever-te com o corpo todo, enviando uma seta que se finca no ponto tenro e nevrálgico da palavra. (...) Não pinto idéias, pinto o mais inatingível “para sempre”. Ou “para nunca”, é o mesmo. (...) Tenho que me destituir para alcançar cerne e semente de vida. (...) Escrevo por acrobáticas e aéreas piruetas – escrevo por profundamente querer falar...”
Sei que o tempo foi curto... Sei que nossas leituras foram intensas... Sei que era muito trabalho... Mas, às vezes, erramos para acertar! Tudo foi pensado sempre na perspectiva de fazer o melhor para vocês! Se houve erros, e sei que houve, foi porque buscava dar a melhor aula, a melhor explicação... Ser comprometido com educação de qualidade não é para qualquer um. Como diz Paulo Freire, “educador é aquele que ensina ao aprender e aprende ao ensinar”... Com vocês, aprendi muito! Espero ter ensinado muito!
Não esqueçam:
As letras dançam sobre as estrelas!
As letras dançam sobre as telas!
As letras dançam sobre os papéis!
As letras dançam, simplesmente... E nós dançamos com elas!!
Querem entrar nessa dança?
Então sejam bem-vindos!!
Dancemos até o sol raiar.
Por fim, lembrem-se que cada pessoa é mãe-Terra. Cada pessoa possui um nome próprio. Cada pessoa possui uma descrição de si mesmo. Cada pessoa possui subjetividades e intersubjetividades próprias.
“Por que cada um representa uma ponte onde termina e se compendia o processo evolutivo. Pelo fato de ser falante, reflexivo e consciente, cada um faz uma síntese singular única, irrepetível de tudo o que capta, sente, entende e ama.’ (Boff, p. 127)
Lembrem-se:
‘VOCÊS SÃO CAPAZES DE ATOS GRANDIOSOS’.
NÃO DESISTAM!
NÃO SE ENTREGUEM!
NÃO SE REDUZAM!
NÃO DEIXEM DE LUTAR, POIS O SER HUMANO QUE NÃO LUTA É PORQUE JÁ PERDEU O SENTIDO DA VIDA.
NÃO PERCAM, NUNCA, O SENTIDO DA VIDA!
O PODER NÃO ESTÁ LONGE...
Ivan Amaro
Um comentário:
Sem palavras....
na falta delas...
nada escrevi, apenas, BRAVO!!!!!
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