29 setembro 2007

Discurso na Formatura de uma turma de Comunicação...

NA PALMA DA TUA MÃO!!


Boa noite! Quando recebi o e-mail das representantes da Comissão de Formatura, Solemar e Caroline, para participar das comemorações de formatura de vocês, eu não sabia bem o que fazer. Eram tantos os sentimentos em que eu estava envolto, que toda minha inspiração quase se foi com o êxtase de abrir cada momento da minha memória em que vocês construíam conhecimentos nos três semestres iniciais do curso de Comunicação Social. Era um regozijo só. Texto, leitura, coesão, coerência, reportagem narrativa, reportagem dissertativa, texto pubilicitário, metáforas, metonímias... Tudo isso dançava em minha memória... Lembro dos meus apelos: “leiam”, “leiam”, “leiam”... “escrevam”, “escrevam”, “escrevam”...

Mas, pensando um pouco melhor, resolvi escrever...Sabem por quê?

Porque exigi leitura, escrita... Escrita e leitura... Mais leitura, mais escrita... Era tanta leitura e tanta escrita que quase fiquei tonto...

Como? Eu, tonto?

Isso!! Exatamente!! Percebi o quanto deixei, por vezes, vocês completamente tontos. Tontos de conhecimento. Tontos de leitura. Tontos de escrita. Tontos de sabedoria.

Escrevi algo, não sei há quanto tempo, que me desnudava por inteiro. Depois, não mais tempo tive para expor-me, mostrar-me, desvendar-me. E agora, é vocês devem perder o pudor... Desnudem-se!! Desvelem-se!! A escrita faz cada coisa com a gente, não é mesmo!!! Quem não escreveu carta de amor? Quem não chorou suas dores nas páginas de um diário? Quem não escreveu um pequeno bilhete para ganhar a gata ou o gato? Quem não deixou suas marcas escritas nas portas de banheiro? Quem não ficou p. da vida porque perdeu o fone daquela figura fantástica que você conheceu na boate, semana passada?Quem nunca escreveu telefone de alguém em pedaço de guardanapo? Afinal, quem é que não escreve??? A escrita faz parte da nossa vida...

Escrever é isso. Escrever é uma ação solitária. Escrever é retratar mundos jamais pensados. Escrever é a mais tenra essência do avesso. Escrever é desvendar mistérios, criar histórias, analisar idéias, expor pensamentos, fazer analogias, estabelecer conexões com a realidade, com a ficção, com mundos desconhecidos... Escrever é denunciar. Escrever é mostrar-se. Escrever é inocentar.

Escrever é ver-se no espelho e descobrir-se deslumbrado com a essência humana. Não conheço ninguém que não tenha se olhado no espelho e que não tenha se surpreendido consigo próprio. Agora, escrevo compungido para mostrar-me, mais uma vez e surpreender-me mais comigo mesmo. Escrever é libertar e libertar-se...

O meu ‘eu’ escrevente alterna com o meu ‘eu’ pensante e, por vezes, eles se confundem e mostram todas as confusões possíveis dos vários sujeitos que compõem a minha pessoa: o eu-professor, o eu-mestrando, o eu-amigo, o eu-filho, o eu-prazer, o eu-amante, o eu-político, o eu-militante, o eu-eu... Esse, com todas as contradições próprias de nós mesmos, sou EU...

Tentando, intentando, atentando a todo momento para ser 'EU'... simplesmente 'EU’... Sem medos, sem rancores, sem amarras. Deixarei fluir minhas idéias, meus sentimentos, meus valores, meus pensamentos, meus olhares.

Dessa feita, folheei alguns escritos do Boff... Fiquei extasiado...

“Homem vem de humus que significa terra fecunda. Adão, Adam, em hebraico, ‘criatura humana feita de terra’, provém de adamá que quer dizer mãe-Terra. O ser humano é filho e filha da mãe-Terra. O ser humano é filho e filha da mãe-Terra. Ele é a Terra em seu momento de consciência, de responsabilidade e de amor.”(Boff, p. 124)

, lembrei de que ‘Ser Professor’ é um pedaço do ‘Ser Humano’.... Professor é ser humano.... Assim, Professor é filho da mãe-Terra... Então, ele é a Terra em seu momento de consciêrncia, de responsabilidade e de amor...

Professor também tem que ler... Professor também tem que escrever... Professor também não tem tempo... Professor também sofre... Professor também chora... Professor também sente... Professor também se magoa... Professor também tem que pensar... Professor também tem que pesquisar... Ah...!!! Era isso!!! Achei a inspiração... Quero que estas idéias possam atravessar épocas e tocar com palavras àqueles que sonham, que viajam, que pensam um mundo diferente, que sejam ricos de utopias e lutadores incansáveis...Eu não podia perder a oportunidade de, neste momento, deixar mais uma palavra de encorajamento para todos vocês... PROFESSOR TAMBÉM TEM QUE TRANSFORMAR... E a inspiração veio. Forte como o primeiro grito de vida... Vejam o que aconteceu...Nascer... Esse é um verbo que traduz a sua verdadeira força de sentido. Para se nascer é preciso entender que o que estamos gestando é algo demorado, exige paciência, exige cuidados, exige calma, exige compreensão.

Algumas vezes, passamos por alguns enjôos; outras, nem tanto. Quando estamos prenhes de emoções, de desejos, de vontades, de pressa, de necessidades outras, tendemos a não ter paciência. Tendemos a acreditar que, sem esforço, as coisas acontecerão imediatamente.

Acabamos por fortalecer os velhos obstáculos como: não tenho tempo, não dou conta, estou cansado, não consigo, quero acabar logo, não agüento mais... Quero dizer que, ao longo dos semestres em que estivemos juntos, nós, alunos, alunas e professor, viemos traçando uma rede de convivência nada tranquila, tensa, às vezes, porém extremamente gratificante, cheia de surpresas, cheia de aproximações...Quem foi que disse que paz é ausência de conflito? Paz é poder olhar no olho do outro e dizer honestamente: Não gostei! Vamos caminhar juntos? Posso colaborar com você? E você? O que pode fazer para me ajudar? Vai me dá a tua mão?

Foram momentos discutindo o que é um ‘texto’, discutindo ‘coesão’, falando sobre ‘coerência’, elucidando o ‘a estrutura do texto jornalístico e do texto publicitário’, viajando no ato de ‘escrever’... Foram tantos saberes... E foram tantos sabores... Que sensação agradável e plena de poder descobrir saberes que só outrem tem acesso! As sensações foram várias, mas ficaram marcadas em cada um de vocês...

Os olhares de desconfiança, de receio, de medo, no início do curso, cederam lugar para o brilho da descoberta, do descortinar dos mitos, da conversa aberta, franca, amiga.

Mas, será que tudo foi tão maravilhoso assim? É claro que seria muita pretensão de nossa parte querer chegar à perfeição. Houve momentos de ansiedade, de angústia, de conflitos, de estresse... Mas tudo foi superado de modo maduro, sincero, honesto.

Nada abalou o firme propósito de escrever, de conhecer, de amadurecer, de aprofundar conhecimentos, de brincar com as palavras, de mexer com estruturas fixas, de fazer as letras e as palavras dançarem...

Nasceu... O verbo não mais assume a sua forma nominal, mas ação efetiva. Nasceu o verdadeiro sentimento de pertencimento. Nasceu o exercício do poder da palavra. Nasceu a vontade de avançar no próprio processo de formação. Nasceu o produto de um trabalho realizado por pessoas sérias, compromissadas, capazes. Nasceu a mágica das cabeças, mãos, pernas, bocas, braços, corpos desses estudantes inquietos, espertos e loucos para aprender...

Milimetricamente, a coreografia foi ganhando forma. Os passos foram todos ensaiados. As vestimentas compuseram o cenário do balé. Um balé mágico de palavras, de saberes, de desejos. Um balé mágico de suavidade entre os conhecimentos, as palavras que impregnaram nossas mentes. Uma dança com as letras, com as palavras, com as nossas idéias, com o nosso poder de pesquisar movimentos, idéias, sensações...

Os resultados desse dessa jornada representam a verdadeira conjunção de saberes que finalizam parte de nossa caminhada. Foram grandiosas as contribuições de vocês e, com certeza, dei tudo o que me foi possível dar... É isso! Não conseguimos as coisas sozinhos. Somos seres coletivos. Somos seres sociais. Conseguimos vencer juntos! Aqui, quero gritar VÁRIOS NÃOS BEM GRANDES:

NÃO ao individualismo! NÃO a todo e qualquer tipo de preconceito! NÃO ao sentimento de fraqueza! NÃO à falta de ética! NÃO ao autoritarismo! NÃO à desonestidade! NÃO à falta de criticidade! NÃO à falsidade desenfreada! NÃO à preguiça desregrada! NÃO à letargia! NÃO a tudo o que não edifica.

Daqui pra frente é seguir sem medo , sem hesitar. É preciso auto-afirmar-se, acreditar no próprio poder. Dar passos firmes, sólidos, certos!

Vocês, JORNALISTAS E PUBLICITÁRIOS, serão, se já não o são, os grandes transformadores desse país. Esse Brasil precisa de gente apaixonada, feliz, lutadora, questionadora... Basta de acriticismo! Basta de passividade! Basta de comodismo! Basta de injustiças! Basta de fome! Basta de miséria! Basta de corrupção! Basta de larápios de colarinho branco!

Clarice Lispector dá-nos uma grande lição do poder que temos ao escrever, ao falar :

Ao escrever não posso fabricar como na pintura, quando fabrico artesanalmente uma cor. Mas estou tentando escrever-te com o corpo todo, enviando uma seta que se finca no ponto tenro e nevrálgico da palavra. (...) Não pinto idéias, pinto o mais inatingível “para sempre”. Ou “para nunca”, é o mesmo. (...) Tenho que me destituir para alcançar cerne e semente de vida. (...) Escrevo por acrobáticas e aéreas piruetas – escrevo por profundamente querer falar...”

Sei que o tempo foi curto... Sei que nossas leituras foram intensas... Sei que era muito trabalho... Mas, às vezes, erramos para acertar! Tudo foi pensado sempre na perspectiva de fazer o melhor para vocês! Se houve erros, e sei que houve, foi porque buscava dar a melhor aula, a melhor explicação... Ser comprometido com educação de qualidade não é para qualquer um. Como diz Paulo Freire, “educador é aquele que ensina ao aprender e aprende ao ensinar”... Com vocês, aprendi muito! Espero ter ensinado muito!

Não esqueçam:

As letras dançam para todos nós!

As letras dançam sobre as estrelas!

As letras dançam sobre as telas!

As letras dançam sobre os papéis!

As letras dançam, simplesmente... E nós dançamos com elas!!

Querem entrar nessa dança?

Então sejam bem-vindos!!

Dancemos até o sol raiar.


Por fim, lembrem-se que cada pessoa é mãe-Terra. Cada pessoa possui um nome próprio. Cada pessoa possui uma descrição de si mesmo. Cada pessoa possui subjetividades e intersubjetividades próprias.


“Por que cada um representa uma ponte onde termina e se compendia o processo evolutivo. Pelo fato de ser falante, reflexivo e consciente, cada um faz uma síntese singular única, irrepetível de tudo o que capta, sente, entende e ama.’ (Boff, p. 127)

Lembrem-se:

‘VOCÊS SÃO CAPAZES DE ATOS GRANDIOSOS’.
NÃO DESISTAM!

NÃO SE ENTREGUEM!

NÃO SE REDUZAM!

NÃO DEIXEM DE LUTAR, POIS O SER HUMANO QUE NÃO LUTA É PORQUE JÁ PERDEU O SENTIDO DA VIDA.

NÃO PERCAM, NUNCA, O SENTIDO DA VIDA!

O PODER NÃO ESTÁ LONGE...


Ele está bem aí, na palma da tua mão!

Ivan Amaro



28 setembro 2007

Ver Melho


Vermelho é o sangue que jorra a esmo pelas narinas secas

O sonho daquele que não sonha é vermelho

Vermelho é o sofrer daqueles que sofrem por nada doer

O tom daqueles pobres escurraçados que querem ter cor é vermelho

Ver Melho é meu tesão que bate arritmado em seus pulsos rentes de paixão

O amor que não existe, que queima, que corrói, que mata... é Ver Melho!

Ivan Amaro

26 setembro 2007

UM OLHAR DESPRETENSIOSO SOBRE "OS SIMPSONS - O FILME"

Quarta-feira. Retorno de mais um dia de trabalho, a caminho de casa. Trânsito lento. Barulho irritante. Irritação barulhenta.

"O que fazer?", pergunta a minha mais nova antiga amiga Cida.

"Ah, já sei... Vamos assistir ao filme dos Simpsons?"

Fiquei um tanto quanto em choque, mas mantive a classe. É que não tinha a mínima noção de que ela tivesse uma atração tão mordaz pela família Simpsons. Nunca tinha ouvido nenhum comentário a respeito.

"
Eh, eh...vamos, sim". - Respondi, sem conotar nenhum tipo de ironia ou desconforto. Em Águas Claras, em meio à poeira, o barulhão das construções, o palpitar do nervosismo urbano são sentimentos constantes e inconstantes. O cinema da cidade, ainda pouco movimentado, convida-nos ao deleite de sentirmos a sala só nossa!! De mais ninguém!!
A sala de cinema quase toda a nossa disposição...

I
nicia-se, então, um dos representantes mais críticos do "modus operandi" do "american way life". A musiquinha característica de abertura da série (na TV) é reconhecida rapidamente.

É claro que o filme trata de uma crítica muito lúcida e, talvez, muito atormentada do modo de viver e pensar americano.

"Os Simpsons - o filme" não difere quase nada do que já estamos acostumados a acompanhar pela televisão: crítica cáustica ao próprio modo de vida americano, posturas mais do politicamente incorretas, exacerbação nada ufanista e escrachada, enfim, o verdadeiro rosto de muitos americanos que se sentem os donos do mundo, os donos do poder.

O
humor atroz, vivaz, inteligente leva-nos a um misto de pensamento filosófico, psicológico, sociológico, antropológico... Principalmente, para nós, educadores que adoramos "teorizar" sobre o mundo!! As situações "cômicas" assumem vieses, muitas vezes, de profunda reflexão sobre o mundo, sobre as pessoas, sobre costumes, hábitos e culturas.

N
o início, em plena igreja, o vovô Simpson é possuído por um espírito e faz premonições catastróficas. A cena do espírito incorporado é, no mínimo, intrigante, pois era quase visível a sobreposição de outras imagens que nos lembram grandes ritos de determinadas igrejas em nosso país. A alienação se coloca como eixo.

A
catástrofe anunciada envolve o ataque cruel da humanidade sobre a natureza e, conseqüentemente, a sua vingança. Lisa Simpson, com seu tom politicamente correto, assume a defesa do meio-ambiente. As reações da população de Springfield ao trabalho de conscientização de Lisa em muito se assemelham a posição tomada pelo EUA, no protocolo de Kyoto: "tô nem aí, não tenho nada com isso".

E
quem é que provoca o maior "desastre ambiental", em Springfield? Não poderia ser ninguém menos do que Homer!! Obviedade característica!

N
ão poderia faltar, óbvio, a figura do presidente americano. Mas, não pensem que é o Bush quem aparece. O "Presidente dos EUA" é retratado pelo "rascunho" de ator e "dublê" de governador, o Sr. A. Schwarnegger.

A
ssim, a cidade é isolada por uma redoma devido ao caos ambiental causado por Homer. A partir daí, o conflito se instaura. A família simpson se vê pressionada a fugir da cidade para o Alaska. E os fatos finais reservam doses certas de gargalhadas e alguma reflexão, se é que ainda é possível refletir sobre alguma coisa mais a esta altura da narrativa.

O
que fica como resultado é que o filme convence, diverte e leva-nos a pensar...e muito! Bom filme! Vale a pena!