Quarta-feira. Retorno de mais um dia de trabalho, a caminho de casa. Trânsito lento. Barulho irritante. Irritação barulhenta. "O que fazer?", pergunta a minha mais nova antiga amiga Cida.
"Ah, já sei... Vamos assistir ao filme dos Simpsons?"
Fiquei um tanto quanto em choque, mas mantive a classe. É que não tinha a mínima noção de que ela tivesse uma atração tão mordaz pela família Simpsons. Nunca tinha ouvido nenhum comentário a respeito.
"Eh, eh...vamos, sim". - Respondi, sem conotar nenhum tipo de ironia ou desconforto. Em Águas Claras, em meio à poeira, o barulhão das construções, o palpitar do nervosismo urbano são sentimentos constantes e inconstantes. O cinema da cidade, ainda pouco movimentado, convida-nos ao deleite de sentirmos a sala só nossa!! De mais ninguém!!
A sala de cinema quase toda a nossa disposição...
Inicia-se, então, um dos representantes mais críticos do "modus operandi" do "american way life". A musiquinha característica de abertura da série (na TV) é reconhecida rapidamente.
É claro que o filme trata de uma crítica muito lúcida e, talvez, muito atormentada do modo de viver e pensar americano.
"Os Simpsons - o filme" não difere quase nada do que já estamos acostumados a acompanhar pela televisão: crítica cáustica ao próprio modo de vida americano, posturas mais do politicamente incorretas, exacerbação nada ufanista e escrachada, enfim, o verdadeiro rosto de muitos americanos que se sentem os donos do mundo, os donos do poder.
O humor atroz, vivaz, inteligente leva-nos a um misto de pensamento filosófico, psicológico, sociológico, antropológico... Principalmente, para nós, educadores que adoramos "teorizar" sobre o mundo!! As situações "cômicas" assumem vieses, muitas vezes, de profunda reflexão sobre o mundo, sobre as pessoas, sobre costumes, hábitos e culturas.
No início, em plena igreja, o vovô Simpson é possuído por um espírito e faz premonições catastróficas. A cena do espírito incorporado é, no mínimo, intrigante, pois era quase visível a sobreposição de outras imagens que nos lembram grandes ritos de determinadas igrejas em nosso país. A alienação se coloca como eixo.
A catástrofe anunciada envolve o ataque cruel da humanidade sobre a natureza e, conseqüentemente, a sua vingança. Lisa Simpson, com seu tom politicamente correto, assume a defesa do meio-ambiente. As reações da população de Springfield ao trabalho de conscientização de Lisa em muito se assemelham a posição tomada pelo EUA, no protocolo de Kyoto: "tô nem aí, não tenho nada com isso".
E quem é que provoca o maior "desastre ambiental", em Springfield? Não poderia ser ninguém menos do que Homer!! Obviedade característica!
Não poderia faltar, óbvio, a figura do presidente americano. Mas, não pensem que é o Bush quem aparece. O "Presidente dos EUA" é retratado pelo "rascunho" de ator e "dublê" de governador, o Sr. A. Schwarnegger.
Assim, a cidade é isolada por uma redoma devido ao caos ambiental causado por Homer. A partir daí, o conflito se instaura. A família simpson se vê pressionada a fugir da cidade para o Alaska. E os fatos finais reservam doses certas de gargalhadas e alguma reflexão, se é que ainda é possível refletir sobre alguma coisa mais a esta altura da narrativa.
O que fica como resultado é que o filme convence, diverte e leva-nos a pensar...e muito! Bom filme! Vale a pena!
Nenhum comentário:
Postar um comentário